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"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

11.Mar.08

nota mais ou menos

Os corações e as mentes

 

"Até sábado passado, a discussão sobre as reformas em curso na educação tinha, apesar de tudo um cariz técnico."

(...)

" A partir da manifestação de sábado, que pôs na rua cem mil professores que contestam a ministra, a equipa ministerial e as suas políticas, a discussão em torno das mesmas reformas tornou-se necessariamente política (...) Será possível impor reformas que devem ser executadas por uma dada classe, contra a vontade dessa classe? A ministra tem respondido (indirectamente) que sim quando diz que, mau grado a contestação e as manifestações, as reformas estão a ter lugar e a avaliação está a decorrer. É evidente que isso é possível devido à capacidade que o Ministério possui de exercer pressão sobre os professores - nomeadamente em termos de evolução na carreira. Mas também é evidente, por outro lado, que uma classe que apenas executa aquilo a que é formalmente obrigada possui um desempenho que fica atrás do possível e dramaticamente atrás do desejável. Será possível fazer reformas na educação sem conquistar os corações e as mentes dos professores?

Para alguém que não tenha da educação uma visão sindical, é evidente que os professores são responsáveis por muito daquilo que está mal nesta área. Ninguém saberá dizer se são uma larga maioria ou apenas uma muito expressiva minoria, mas é evidente que há muitos professores sem motivação, cuja formação científica e pedagógica deixa a desejar, que entraram na profissão por falta de alternativas ou na esperança de uma vida com menos horas de trabalho, que não investem nos alunos, que repetem burocraticamente as aulas após ano, para quem a carreira se passa a contar os anos para a reforma e a arranjar forma de escapulir a todos os serviços não obrigatórios e que nem sequer se batem por melhores condições de trabalho. Tudo isso é verdade e é evidente que estes professores tentarão opor-se a qualquer reforma que vise mais exigência, mais investimento ou mais responsabilização, usando os sindicatos e todas as fórmulas legais possíveis para além da simples obstrução . Só que estes não são todos os professores.

A verdade é que tudo o que de bom acontece na educação se deve também aos professores. Há professores admiráveis, capazes de acender a centelha da curiosidade, da descoberta e da iniciativa nos seus alunos, capazes de transformar o mundo num local de descoberta e a sala de aula num lugar de novidade, de discussão, de participação cívica, de inteligência. Professores que nunca medem os esforços que fazem em prol dos alunos  que lhes dedicam o melhor de si.

Maria de Lurdes Rodrigues decidiu não tentar levar as suas reformas a cabo em negociação com os sindicatos - o que é criticável mas compreensível, pois os sindicatos da educação nunca foram conhecidos pelo seu fulgor reformista nem pela exigência de qualidade no ensino - , mas decidiu não as fazer sequer em aliança com os professores. E a verdade é que não se podem fazer reformas significativas na educação, que melhorem de facto a prática quotidiana das escolas e o ensino que se proporciona aos estudantes, sem a colaboração activa, sem o empenhamento dos professores.

Ainda que alguns professores vejam nesta ou naquela medida sinais positivos e estejam disponíveis para as pôr em prática, a verdade é que estas reformas não possuem campeões nas escolas. E uma verdadeira reforma não acontece sem campeões.

 

José Vítor Malheiros - Jornalista

in Espaço Público (Público - 11-03-2008

 

OBS :

1. É evidente que José Vítor Malheiros tem razão quando questiona se é possível fazer reformas em educação sem a participação dos principais interlocutores nessa área: os professores e é evidente que a resposta é NÂO ;

2. É evidente que o articulista partilha do discurso que se refere aos docentes como sendo laxistas, incompetentes, preguiçosos, etc. É evidente que sabe que há muitos professores maus, mas ~desconhece se são "uma larga maioria" ou uma muito expressiva minoria". Quantos professores destes conhece aponto de não saber se são uma minoria ou uma mairia. Ainda bem que afirma que não são todos.

3. É evidente um discurso antisindicalista, como se os sindicatos não fossem organizações constituídas por professores e não tivessem estado sempre na primeira linha da luta por uma educação de qualidade e na defesea de uma escola pública de qualidade.

4. Não se entende o que são "campeões nas escolas". Mas é verdade que qualquer reforma do ensino tem que contar com o apoio dos professores.

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