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"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

08.Nov.06

o orçamento

Vi e ouvi parte do debate sobre o Orçamento na Assembleia da República, através da TV . José Sócrates, Primeiro-Ministro continua a utilizar um discurso que é o da arrogância, o da prepotência, o do paternalismo de quem acha que, por ter maioria absoluta, pode ridicularizar as minorias.

Não fica bem ao Primeiro-Ministro de Portugal essa postura sobranceira, esses sorrisos de cumplicidade com os seus parceiro de governação. Convinha que o Primeiro-Ministro de Portugal não se excitasse, para utilizar uma palavra tantas vezes repetida por José Sócrates, com a sua própria argumentação.

Convinha, ao Primeiro-Ministro de Portugal, um pouco mais de humildade, um pouco mais de competência para ouvir os outros, um pouco mais de respeito pelos portugueses que o elegeram (e se sentem ludribiados ) e pelos que, não tendo votado nele, merecem igualmente ser respeitados.

Longe vai o tempo do "Primeiro as pessoas". Estamos no tempo do "Primeiro a poupança" à custa do elo mais fraco: a função pública, os professores, os trabalhadores, enquanto os bancos continuam a engordar com os seus lucros ultrajantes para quem, todos os dias, faz um esforço sobre-humano para lutar contra as agruras da vida.

07.Nov.06

"gracias"

Santana Castillo, pelo texto publicado no Público de 6 de Novembro e retirado daqui, com a devida vénia.

"Gracias profesorado, sin vosotros no seria posible"

À epígrafe subjaz uma das muitas diferenças que explicam como, tão perto, estamos tão longe. Foi escolhida pela Consejeria de Educación da Junta de Andalucia, da vizinha Espanha, para lema de uma campanha na imprensa, rádio e televisão, visando prestigiar, reconhecer e valorizar socialmente a profissão de professor.
A Consejeria está para o governo autonómico da Andaluzia como o nosso Ministério da Educação está para o governo do país. A sua titular, consejera (ministra) Cândida Martinez, considerou o conjunto dos 112.000 professores sob sua tutela "o elemento central do sistema educativo" e quis, com esta campanha, "agradecer em nome de toda a sociedade o trabalho que, em cada dia, realizam estes docentes" nas suas escolas.
É caso para dizer, ironicamente: lá, como cá! Lá, 20 anos de adesão à Europa transformaram a Espanha numa das 10 maiores economias mundiais e 45 milhões de habitantes em cidadãos. Apesar do atraso, da presença de nações distintas e dos antagonismos linguísticos. Aqui, primeiro-ministro, ministra da Educação e sequazes, tudo têm feito para dividir os 10 milhões de habitantes em bons e maus, produtivos e vilões. Porque a cidadania é escassa, o populismo destes pequenos políticos resulta e espelha-se nos fóruns da TSF e Antena 1, nos correios dos leitores da imprensa escrita e nos comentários dos blogues. Os professores são hoje, infelizmente, para muitos portugueses invejosos e pouco esclarecidos, os novos párias da sociedade.
O anunciado prolongamento das negociações entre a plataforma sindical e o Ministério da Educação sobre o estatuto dos professores está obviamente condenado ao insucesso. Os sindicatos reclamaram-no para não serem acusados, mais do que já são por alguns, de intransigência. O ministério aceitou-o porque a lei assim obriga. Ambos sabem que o resultado vai ser nulo. Mas o tema justifica algumas considerações, entre tantas possíveis, que ofereço à reflexão de quem pensa que os sindicatos não passam de forças de bloqueio e os professores de desavergonhados privilegiados.
Para reunir cerca de 30.000, vindos de todo o país em dia feriado, e conseguir uma adesão da ordem dos 80 por cento a dois dias de greve, tem de haver um número esmagador e bem superior de professores descontentes. Esta realidade está bem para além da influência do PCP ou dos sindicatos. Significa uma ruptura absolutamente única entre o corpo docente e o Ministério da Educação.
Pouco importa que o primeiro-ministro, alardeando insensibilidade política e sobranceria pessoal, fale de humor quando devia aproveitar, democraticamente, para reflectir sobre a natureza da mensagem. Pouco importa a boçalidade das gargalhadas da ministra quando interrogada sobre o facto. Os atentos sabem que não há concerto possível para esta política de reformas, que assenta no ataque a determinados grupos profissionais, instigando terceiros contra os "privilégios" por aqueles adquiridos.
Falemos de "privilégios". Qual é o vencimento liquido dos professores, depois de 16 anos de estudo, pelo menos, a que acrescem formações periódicas obrigatórias, pós-graduações, mestrados e doutoramentos em número já significativo, pagos do próprio bolso? Em inicio de carreira são cerca de 760 euros, 1000 ao fim de 13 anos de serviço, 1400 ao fim de 23 anos de trabalho. Com 30 anos de serviço chegam aos 1700 euros. Será isto escandaloso?
O impacto da diminuição salarial proposta pelo Ministério da Educação, projectada ao longo da carreira, chega a atingir verbas da ordem dos 300.000 euros. Não deverão os professores lutar por estes "direitos adquiridos"? Para justificar esta rapina, os novos justiceiros falam de justiça social. Estranha maneira de fazer justiça, radicada no cortar, no diminuir e no vilipendiar os que já têm algo. Por que não escolhem aumentar os que têm menos, em vez de lhes alimentar ressentimentos? Que progresso é o deste país, que anda para trás em nome da justiça social?
Qualquer professor tem 35 horas de serviço semanal, como qualquer funcionário público. As 13 dessas horas que não são de aulas são insuficientes para realizar as tarefas que cabem a um professor. Por favor, peço aos portugueses mais distraídos que façam alguns exercícios fáceis. Estejam atentos ao próximo teste que os vossos filhos levem para casa. Leiam-no e reescrevam as anotações que os professores lá exararam. Pensem que ter 200 alunos é uma média corrente. Se o professor fizer dois testes por período e gastar 15 minutos a corrigir cada um, necessitará de 100 horas. Quer isto dizer que lhe sobram 50 horas, nesse período de três meses, para reuniões na escola, preparar lições, atender pais, etc., etc. Onde vai esse tempo?
Por favor, preencham duzentas daquelas fichas idiotas que os professores têm que preencher. Cronometrem o tempo.
Experimentem um só dia espreitar para o interior de uma escola, daquelas em cujas imediações a policia apreendeu, desde o inicio do ano lectivo, 1159 doses de heroína, 1406 de cocaína e 3358 de haxixe. Não falhem uma daquelas onde há rapazinhos com pulseiras electrónicas no tornozelo.
Se não mudarem as ideias sobre os privilégios dos professores, digam-me, que eu sugiro mais exercícios, de tantos que poderão clarificar o que é ser professor, hoje, em Portugal.


07.Nov.06

a vigília

Do Público de 6 de Novembro de 2006

Contra a proposta de revisão do Estatuto da Carreira Docente
Sindicatos em vigília junto ao Ministério da Educação de 15 a 17 de Novembro 

 

Os sindicatos de professores decidiram hoje realizar uma vigília junto ao Ministério da Educação, entre as 11h00 de dia 15 e as 12h00 de 17, num protesto contra a proposta da tutela de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD).

"Esta vigília tem como objectivo protestar contra tão grave proposta de revisão do Estatuto da Carreira Docente e o atentado que a mesma significa à profissão docente e à própria escola pública", explicou Mário Nogueira, porta-voz da plataforma que reúne 14 sindicatos do sector.

De acordo com o responsável, a plataforma vai formalizar quarta-feira o pedido de negociação suplementar do ECD e solicitar "de imediato" pareceres a diversos constitucionalistas sobre o documento que a tutela quer aplicar a partir de 1 de Janeiro.

A polémica negociação, que teve início no final de Maio, terminou na passada terça-feira sem ter sido alcançado qualquer acordo entre o Ministério da Educação e os sindicatos, num processo em que os professores acusaram a tutela de "intransigência e inflexibilidade".

A divisão da carreira em duas categorias (professor e professor titular) e a introdução de quotas para aceder à segunda e mais elevada são os aspectos mais contestados pelos docentes, assim como a avaliação de desempenho dependente de critérios como os resultados escolares e as taxas de abandono dos alunos.

Apesar de ter terminado o processo negocial, a legislação prevê a possibilidade de ser aberto um período suplementar de negociação, a pedido das estruturas sindicais, "para resolução de conflitos" que persistam depois de terminado o processo normal.

Além da vigília, os 14 sindicatos decidiram ainda realizar no dia 17 de Novembro um Plenário Nacional de Professores e Educadores, em local a definir, seguido de um cordão humano até ao Ministério da Educação, na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa, onde será entregue um abaixo-assinado com cerca de 60 mil assinaturas, segundo Mário Nogueira.

Já no dia 22, será distribuído um comunicado em todas as sedes de concelho, uma vez que a luta não é só dos professores mas também das populações, já que a proposta de revisão do ECD "desvaloriza a qualidade de ensino e põe em causa o funcionamento das escolas".

A Plataforma Sindical volta a reunir dia 23 de Novembro, para avaliar o processo de negociação suplementar e para aprovar novas lutas e protestos.

O novo ECD já motivou duas greves nacionais e duas manifestações, a última das quais a 5 de Outubro, Dia Mundial do Professor, que reuniu em Lisboa mais de 20 mil docentes.

06.Nov.06

a culpa

No seu seu afã de encontrar um bode expiatório para a inoperância e ineficácia do seu ministério, a ministra de educação decidiu atribuir a culpa de todos os males de que enferma o sistema educativo apenas aos professores, fazendo tábua rasa de todos os estudos que atribuem ao insucesso escolar uma muito diversificada e complexa rede de causas.

Pessoalmente, creio que a verdadeira culpa pertence aos vários inquilinos da 5 de Outubro e 24 de Julho. Pesquisando no site do ME encontrei esta pérola.

Estão aqui todos, com a excepção de Fraústo da Silva. São acusados de, no pouco tempo tempo em que tiveram o poder, decidirem medidas educativas avulsas que em nada melhoraram o sistema educativo.

Permito-me retirar desta lista apenas Marçal Grilo e Roberto Carneiro, os únicos que aguentaram uma legislatura completa e que, para além disso, produziram algumas medidas positivas para a Educação.

A actual ministra, essa, está decidida a destruir a escola pública, a desempregar os professores, a afastar os eventuais estudantes da educação para outras profissões menos  stressantes e melhor remuneradas, a demitir-se da responsabilidade de organizar um concurso transparente com a justificação de que o ME não é uma agência de emprego.

Com estas medidas, há uma inevitabilidade agradável: o esvaziamento das funções e responsabilidades do Ministério e, por consequência, a sua extinção, por desnecessário.

Aqui está uma ideia que me agrada. Assim, eram menos três a incomodar todos os dias os professores e a permitir que a alegria voltasse às escolas.  

01.Nov.06

"para ver a banda passar"


Chico Buarque - foto daqui

Hoje, no Coliseu do Porto, para matar muitas saudades. Para esquecer a malta do ministério e desfrutar da mágica de um grande senhor da música (e não só), a nível mundial. 

 

 

Outros Sonhos
Chico Buarque/2006

Soñé que el fuego helaba
Soñé que la nieve ardía
Y por soñar lo imposible
Soñé que tú me querías.
(Anônimo)


Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se emperiquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia

Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris inertes no chão
Falavam de astronomia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a policía já não batia

De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias

Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardía
Y por soñar lo imposible, ay, ay
Soñé que tú me querías

01.Nov.06

a anedota

Certo dia, num quartel, o Comandante confrontou-se com a imperiosa necessidade de comunicar a um dos seus soldados a morte da mãe deste. Constrangido, comentou com um dos seus sargentos que não conseguia dar a triste notícia ao infeliz recruta.

O sargento prontificou-se de imediato e, num ápice, chamou o referido militar à sua presença. Então, disse-lhe, sem muitos rodeios e de rajada:

- Soldado José, é para lhe dizer que houve um acidente e que toda a sua família morreu.

 O soldado, em estado de choque, não conseguiu sequer reagir. O sargento, em jeito de consolação, rematou:

 - Olhe que não. Foi só a sua mãe que morreu.

Esta história, contada sobre a forma de anedota, transporta-me às recentes declarações da ministra de educação e do seu secretário de estado a propósito das horas lectivas diárias a cumprir, a partir do próximo ano. Afinal, não são oito horas diárias. São só seis.

Ok. Assim ficamos mais descansados. Não? Já veremos as implicações da ideia.

 

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