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"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

11.Mar.08

nota mais

Um protesto e três lições

 

"Há três lições básicas a retirar da enorme manifestação de professores de sábado . O seu efeito foi simplesmente brutal. E como se isso não bastasse, a gestão da crise pelo governo atingiu o limite do suicidário. Dos agentes da PSP enviados às escolas na véspera da manifestação ao discurso incendiário de Santos Silva em Chaves, o executivo desbaratou o capital político de que ainda dispunha à partida para este confronto. Por arrogância ou excesso de confiança, pouco importa. (...) Mas contra cem mil pessoas na rua não há nada a fazer. Os professores obrigaram a opinião pública a olhar com outros olhos para o problema e mostraram que a ministra está isolada lá no alto do 5 de Outubro. (...) Maria de Lurdes Rodrigues não tem condições para continuar. O problema é que agora José Sócrates não tem condições para a demitir."

(...)

A primeira lição de tudo isto tem a ver como modo de governar em maioria absoluta. Mesmo se não é preciso alcançar os acordos parlamentares, não deixa de ser necessário negociar e persuadir. (...) O autismo e a arrogância que se apropriaram das mentes governamentais mostram que os perigos das maiorias absolutas continuam bem vivos. Nesse sentido, a manifestação de sábado foi uma lição de democracia e não o contrário."

(...)

"A segunda lição diz respeito ao futura da educação. (...) Nos próximos anos, ninguém vai conseguir mudar uma vírgula contra a vontade dos professores. José Sócrates bem podia, no domingo, fazer a sua profissão de fé em nome da "razão" e contra os "números". Sabe que houve um momento em que devia ter negociado mas preferiu esticar a corda além do limite. Sabe que perdeu o braço-de-ferro e não o pode admitir. Perdeu ele e perdeu a educação, que ficou irreformável no curto prazo.

A terceira lição, portanto, é sobre os vencedores do dia. Os professores legitimaram  sua posição de forma inequívoca. A opinião pública percebeu que eles não podem continuar a ser tratados como até aqui. Mas há um perigo. A vitória foi demasiado esmagadora. Por isso, pode embriagar e corre o risco de se diluir noutros protestos. Gerir a vitória é sempre mais complicado do que ganhar. E requer abertura, para ser compreendido pela opinião pública. Mas o sinal político teria que vir do Governo."

 

Miguel Gaspar

in Uma linha a mais (Público - 11-03-2008)

 

OBS : Concordo plenamente.

11.Mar.08

nota mais ou menos

Os corações e as mentes

 

"Até sábado passado, a discussão sobre as reformas em curso na educação tinha, apesar de tudo um cariz técnico."

(...)

" A partir da manifestação de sábado, que pôs na rua cem mil professores que contestam a ministra, a equipa ministerial e as suas políticas, a discussão em torno das mesmas reformas tornou-se necessariamente política (...) Será possível impor reformas que devem ser executadas por uma dada classe, contra a vontade dessa classe? A ministra tem respondido (indirectamente) que sim quando diz que, mau grado a contestação e as manifestações, as reformas estão a ter lugar e a avaliação está a decorrer. É evidente que isso é possível devido à capacidade que o Ministério possui de exercer pressão sobre os professores - nomeadamente em termos de evolução na carreira. Mas também é evidente, por outro lado, que uma classe que apenas executa aquilo a que é formalmente obrigada possui um desempenho que fica atrás do possível e dramaticamente atrás do desejável. Será possível fazer reformas na educação sem conquistar os corações e as mentes dos professores?

Para alguém que não tenha da educação uma visão sindical, é evidente que os professores são responsáveis por muito daquilo que está mal nesta área. Ninguém saberá dizer se são uma larga maioria ou apenas uma muito expressiva minoria, mas é evidente que há muitos professores sem motivação, cuja formação científica e pedagógica deixa a desejar, que entraram na profissão por falta de alternativas ou na esperança de uma vida com menos horas de trabalho, que não investem nos alunos, que repetem burocraticamente as aulas após ano, para quem a carreira se passa a contar os anos para a reforma e a arranjar forma de escapulir a todos os serviços não obrigatórios e que nem sequer se batem por melhores condições de trabalho. Tudo isso é verdade e é evidente que estes professores tentarão opor-se a qualquer reforma que vise mais exigência, mais investimento ou mais responsabilização, usando os sindicatos e todas as fórmulas legais possíveis para além da simples obstrução . Só que estes não são todos os professores.

A verdade é que tudo o que de bom acontece na educação se deve também aos professores. Há professores admiráveis, capazes de acender a centelha da curiosidade, da descoberta e da iniciativa nos seus alunos, capazes de transformar o mundo num local de descoberta e a sala de aula num lugar de novidade, de discussão, de participação cívica, de inteligência. Professores que nunca medem os esforços que fazem em prol dos alunos  que lhes dedicam o melhor de si.

Maria de Lurdes Rodrigues decidiu não tentar levar as suas reformas a cabo em negociação com os sindicatos - o que é criticável mas compreensível, pois os sindicatos da educação nunca foram conhecidos pelo seu fulgor reformista nem pela exigência de qualidade no ensino - , mas decidiu não as fazer sequer em aliança com os professores. E a verdade é que não se podem fazer reformas significativas na educação, que melhorem de facto a prática quotidiana das escolas e o ensino que se proporciona aos estudantes, sem a colaboração activa, sem o empenhamento dos professores.

Ainda que alguns professores vejam nesta ou naquela medida sinais positivos e estejam disponíveis para as pôr em prática, a verdade é que estas reformas não possuem campeões nas escolas. E uma verdadeira reforma não acontece sem campeões.

 

José Vítor Malheiros - Jornalista

in Espaço Público (Público - 11-03-2008

 

OBS :

1. É evidente que José Vítor Malheiros tem razão quando questiona se é possível fazer reformas em educação sem a participação dos principais interlocutores nessa área: os professores e é evidente que a resposta é NÂO ;

2. É evidente que o articulista partilha do discurso que se refere aos docentes como sendo laxistas, incompetentes, preguiçosos, etc. É evidente que sabe que há muitos professores maus, mas ~desconhece se são "uma larga maioria" ou uma muito expressiva minoria". Quantos professores destes conhece aponto de não saber se são uma minoria ou uma mairia. Ainda bem que afirma que não são todos.

3. É evidente um discurso antisindicalista, como se os sindicatos não fossem organizações constituídas por professores e não tivessem estado sempre na primeira linha da luta por uma educação de qualidade e na defesea de uma escola pública de qualidade.

4. Não se entende o que são "campeões nas escolas". Mas é verdade que qualquer reforma do ensino tem que contar com o apoio dos professores.

11.Mar.08

nota menos

Encalhados

 

(...)

"Não houve alteração política em Portugal que não sublinhasse o potencial e os perigos resultantes da dispersão regional e da extraordinária proximidade que os professores mantêm com a população. os professores sempre foram vistos como um extraordinário veículo de propaganda ou como perigosos agitadores: a República pô-los a oficiar cerimónias maçónicas, o Estado Novo controlou-os e perseguiu-os mais do que a quaisquer outros funcionários e a democracia almejou que eles construíssem, em cada escola, aquele que era o seu modelo de sociedade ideal - um universo onde a disciplina surgia naturalmente, se trabalhava sem esforço e onde todos eram iguais."

(...)

"Ao extinguir o chamado ensino técnico entendeu a geração de Veiga Simão que estava a dar um forte contributo para acabar com as diferenças entre pobres e ricos, pois todos passariam frequentar a escola unificada. (...) em nome da igualdade, a actual equipa ministerial terminou com o ensino artístico..."

(...)

"Sob a batuta da 5 de Outubro o universo-escola criou uma linguagem própria que tornou apresentável este reino do absurdo, em que se tornaram indistintos não apenas os resultados mas também o que cada um fazia na escola. (...) a transmissão de conhecimentos deu lugar a uma situação relacional onde por vezes se ficava retido e a violência escolar passou a ser encarada como uma forma não enquadrada da expressão de problemas. Para cúmulo, o próprio saber dos professores entrou numa espiral de relativismo: o que importava era acumular créditos em acções de formação e não o conteúdo dessas acções. Assim, era rigorosamente igual para um docente de Alemão frequentar uma acção em língua alemã, ecologia ou azulejaria. Isto numa versão relativamente bondosa do sucedido, porque em alguns casos chegaram a fazer-se seminários para docentes ministrados por "terapeutas de energias" e astrólogos. Tudo isto devidamente avalizado e estimulado pelo ministério.

os professores não inventaram nada do monstro que anda para aí. Simplesmente se adaptaram a todas as reformas prontas a usar que lhes foram entregues pela 5 de Outubro. Os professores temem agora - e têm fortes motivos para isso - que a avaliação os torne nos bodes expiatórios do falhanço duma política, a da educação que leva 11 por cento do investimento público português e não apresenta resultados minimamente satisfatórios. Diz a ministra que os professores não querem ser avaliados. Provavelmente tem razão a senhora ministra. Mas os professores apenas se limitam a fazer seus os princípios básicos do ministério. Durante quantos anos o ministério tentou que não fossem conhecidos os dados que permitem elaborar os rankings? E, por acaso, deixa Maria de Lurdes Rodrigues que os pais avaliem as escolas? Quando digo avaliar não falo de preencher fichas ou dar notas a professores. Falo da única forma que conheço de avaliação dum serviço: termos a liberdade de o trocar por outro.

O critério da escolha das famílias . instituindo o cheque ensino e dando a liberdade às escolas públicas para se organizarem consoante as necessidades daqueles que as procuram - é o único processo de se poder avaliar o trabalho duma escola e dos seus professores. Os professores serão avaliados no dia em que numa qualquer escola pública, em Portugal, um encarregado de educação possa dizer que quer transferir o seu filho para a escola A, seja ela pública ou privada, simplesmente porque ela é melhor e, que na sequência dessa transferência, os cinco mil euros que o Estado português paga anualmente com a educação do seu filho passarão a ser entregues na escola Y e não naquela que frequentou até então."

(...)

"Os pais e os alunos estão encalhados à espera que algo consiga quebrar esta concepção da educação que leva a que a mesma esteja reduzida a uma guerra entre a rua, onde os professores desfilam ao sábado, e ministério donde a ministra faz prova de vida nos noticiários da noite do fim-de-semana . Quer os professores quer a ministra sabem que não têm margem para muito mais.

Entretanto, de segunda a sexta, os alunos portugueses fazem o seu ensino obrigatório numa escola que não podem escolher. Será que a ministra e os professores querem mesmo falar de avaliação?"

 

Helena Matos - jornalista

in Público (11.03.2008

 

OBS :

1. Helena Matos comunga da representação ministerial dos docentes: pessoas que não querem trabalhar, que não investem na educação, que não querem ser avaliados e que não têm inteligência nem vontade própria.

2. Helena Matos despe a sua pele de jornalista e vestir a de mãe para falar do que não sabe, por exemplo, no que se refere à formação contínua de professores e ao sistema de avaliação de desempenho.

3. Helena Matos tem uma visão redutora sobre a avaliação. Para ela, a avaliação resume-se à eventual possibilidade de um pai, ou mãe, poder transferir o filho, ou filha, de uma para outra escola só porque não gosta da primeira.