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"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

"à espera de godot"

"... é uma coisa que não é, mas faz de conta que é para ver como seria se fosse."

14.Nov.06

o espanto

Foi com algum espanto que  li aqui a entrevista de Pedro Guedes de Oliveira, director do INESC, catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e, segundo o entrevistador, "examinador" das escolas.

O espanto advém, primeiro, da resposta à pergunta:

A propósito de "stakeholders", concorda com a ideia de os pais passarem a ter uma intervenção indirecta na avaliação dos docentes?

Desde que isso seja feito com bom-senso, não tenho qualquer objecção. Do mesmo modo, sempre achei que os alunos devem ser um elemento importante na avaliação dos professores no Ensino Superior, tal como sucede noutros países. Em Portugal, já se vai fazendo, mas com pouca clareza. As notas não são tornadas públicas. E devo dizer que é estranho uma classe que passa a vida a avaliar, e que vê os jovens com a sua vida às voltas por falta de umas centésimas que não os deixa entrar em Medicina, esteja sempre com medo das avaliações só porque elas não são justas. Não são com certeza sempre justas. Ninguém pode dizer que aquele aluno com mais duas centésimas merecia mais entrar em Medicina. Apesar de tudo, é inevitável. E é possível montar sistemas mais justos, menos arbitrários e que apresentem alguma coisa de válido. (sublinhados meus)

Não percebo onde foi buscar esta ideia do medo. Os professores não têm medo da avaliação. Os professores têm vindo a ser avaliados, de acordo com as regras em vigor. Os professores desejam uma avaliação justa que permita distinguir os bons dos maus professores (que os há, como em qualquer outra profissão). Os professores desconfiam de um tipo de avaliação que o Ministério quer implementar e que, ele próprio, ainda não sabe muito bem como vai fazê-lo, com que critérios, quais os parâmetros, quem vai intervir na avaliação e qual a implicação dessa avaliação. A única coisa que parece saber o Ministério é que em função dessa avaliação há-de haver professores que nunca chegarão ao topo da carreira (e serão a maioria) e que isso interessa ao governo, porque significa uma enorme "poupança" ao erário público.

O espanto advém, em segundo lugar, de outra resposta:

Simpatiza com as linhas gerais do Estatuto da Carreira Docente (ECD) proposto pelo Governo?

Conheço só as linhas muito gerais, mas há coisas com as quais simpatizo e outras com que não simpatizo de todo. Não concordo com a extensão do estatuto. Devia ser uma coisa simples e fácil de ler. Não devia ser enorme e muito regulamentar. É um problema que temos em Portugal, mas o mesmo se passa na carreira universitária. Acho inevitável que haja escalões e que esses correspondam a estágios diferentes de desenvolvimento de competências e de responsabilidades. É justo e realista que não haja espaço para todos aqueles que forem muito bons. Quando o número é ilimitado, toda a gente vai até ao topo.

Espanta-me esta lógica de achar justo(??) não haver espaço para todos os muito bons. Onde está a justiça disto? Se os professores demonstrarem nessa avaliação de desempenho que são muito bons, devem ter direito a chegar aos lugares do topo sem condicões artificiais. Qual é o problema de toda a gente, sobretudo se for muito boa, sobretudo se desempenhar as mesmas funções(as lectivas) ir ao topo?

O espanto advém ainda desta resposta:

Como na universidade, onde não há cátedras para todos.

Exactamente. Acho, portanto, normal que assim seja. E eu até acho que devia haver mais do que dois estágios (professor e professor titular). Acho absolutamente razoável que uma pessoa, vendo que tem a sua evolução de carreira tapada, procure outros sítios. Acho óptimo que se induza mobilidade. As pessoas têm de se habituar.

Como é? Então o senhor "examinador" acha razoável que se induza a mobilidade. Acha bem que, de repente, as pessoas deixem de ter garantidas condições mínimas e básicas de estabilidade profissional para andarem, supõe-se que no meio ou quase no fim da carreira, à procura de outros sítios. Claro que é fácil falar quando se está na posição "precária" de quem tem três sítios assegurados (o INESC, a FEUP e a "examinação de escolas".

O espanto advem, finalmente, que o post já vai longo de:

Quanto às partes que considera mais críticas.

Não acho bem que sejam os coordenadores de departamento a ter uma parte muito activa na avaliação. Eles são eleitos por um período temporário. É complicado quando alguém que hoje avalia, porque foi eleito, está amanhã a ser avaliado, porque é eleitor. Eu posso avaliar o produto do trabalho de alguém. Não avalio a pessoa, mas sim o produto do seu trabalho.

O que é que isto quer dizer? Que o senhor examinador acha que quem avalia não pode vir a ser avaliado. Porquê? Se a avaliação for correcta e justa não há que temer retaliações. Devo entender que este senhor que avaliou as escolas que se candidataram ao projecto da autonomia não pode ser avaliado nem pelos professores, nem pelas escolas avaliadas?

Pois eu acho que, a avaliar por esta entrevista, a avaliação das escolas deveria ser refeita.